Missão no Mar Vermelho | Crítica

Otavio Almeida 3 de agosto de 2019 0
Missão no Mar Vermelho | Crítica

Como matar uma história real poderosa com um tratamento genérico e cheio de clichês no cinema

Por Otávio Almeida

Eu queria dizer que o maior problema de Missão no Mar Vermelho (2019) é o fato de ter saído bem depois de Argo e Hotel Ruanda. Veja como é similar: entre 1979 e 1991, agentes do Mossad, o serviço secreto israelense, tentaram salvar judeus de uma Etiópia maltratada por uma guerra civil, e levá-los para Jerusalém. Numa das missões, fizeram escala escondendo refugiados em um resort antes de seguir em frente e cruzar a fronteira.

Parece filme de Oscar, não? Mas como conhecemos roteiros parecidos, e também inspirado em histórias reais, o que vem depois precisa de um tratamento diferenciado, que busque um olhar original dentro daquilo que já vimos antes. Infelizmente, mesmo com sua história obviamente poderosa, Missão no Mar Vermelho prefere trilhar o caminho mais fácil, que é agradar o grande público. Só que não foi uma história necessariamente feita para isso. Por mais que possamos imaginar um final bonito e emocionante, não vi tanto sofrimento assim até o último ato para justificar a catarse em sua conclusão. Provavelmente, porque o filme do diretor e roteirista Gideon Raff se concentra mais nos “heróis” que nos judeus etíopes. Na verdade, praticamente não dá voz alguma aos refugiados.

E buscar agradar ao público em geral é uma decisão bem menos arriscada quando sabemos que Missão no Mar Vermelho é parte do acervo de uma plataforma de streaming, a Netflix. Se sua carreira dependesse de uma passagem consistente pelos cinemas, talvez o filme fosse outro. Mais contundente, violento e capaz de fazer o espectador pensar um pouquinho. É estranho, não? Porque a TV pode mais e eu nem precisava ter citado o cinema. É só ver o exemplo da HBO, que certamente teria buscado uma ousadia maior.

Porém, a grande sentença de morte é o tratamento genérico dado a um filme que surgiu de uma história real tão forte. E isso acontece muito mais em sua primeira metade, quando os clichês fazem a festa por toda a parte. Há, inclusive, uma inspiração equivocada em filmes banais de ação; tanto nos diálogos ralos que já ouvimos milhares de vezes em outros filmes e no exagero da trilha sonora quando precisamos e não precisamos dela. Mas esse não é um filme de ação, certo?

Erro que contamina os atores, que não passam a sensação do quanto os personagens principais são tão legais, descolados, lindos, limpinhos demais e, ao mesmo tempo, íntegros e heróicos como eles pensam. Aliás, começam o filme com uma vibe de quem está se preparando para tirar férias; isso quando somos informados de que se trata de uma missão extremamente perigosa, dramática e, talvez, suicida. Há até uma parte com o elenco em vergonhosa montagem rápida estilo cinema dos anos 80 para indicar passagem de tempo ao som de música pop.

E isso é um filme sério

E isso é um filme sério

Dói dizer isso, mas Chris Evans deve ser mesmo um sujeito que você gostaria de abraçar e agradecer pelos filmes da Marvel. Mas como o agente Ari Levinson, ele parece o Capitão América de folga dos Vingadores fazendo trabalho humanitário. Os outros atores não ajudam muito e estão ligados no piloto automático dos personagens estereotipados de um cinema ultrapassado e machista. Tem o chefe chato, exigente e cheio de frases de efeito, o líder galã da equipe que só tem um defeito (o ego), os agentes bonitões com poucas falas, a agente gostosa, que pode ter um pouco mais de fala no roteiro, afinal estamos no século 21, mas fica escondida atrás do elenco masculino. Tem também o médico, que é habitualmente colocado em segundo plano quando tem soldados por perto. E o vilão? Toca guitarra um som maligno antes de fazer maldade e, ainda por cima, trata mal as mulheres.

Mas da metade para a final, devido ao desenvolvimento da trama, os personagens mudam de supetão, assim como o tom do filme, pois chamariam o espectador de idiota na cara dura se continuassem sorrindo e mostrando seus corpos perfeitos ao sol quando a tensão está batendo à porta. Ou seja, a parada fica séria e os coitados precisam amadurecer rápido.

Só que seria errado culpar somente os atores. Não sei se o cineasta Gideon Raff foi engolido pelas decisões da Netflix ou não, mas as soluções aparecem de forma preguiçosa. Por exemplo, a ideia de Ari para a missão surge simplesmente do nada. Ao explicá-la para seus superiores, os outros personagens chegam a repetir não uma, mas duas vezes o briefing (após a famosa fala “Deixe-me ver se eu entendi”) para não deixar o espectador com a mínima dúvida do que virá a seguir. É confiança zero em quem está assistindo ao filme. Sem falar que sabemos exatamente o que acontecerá na sequência de cada cena. Numa delas, um dos chefes de Ari grita, xinga e esperneia negando que concordará com uma de suas estratégias. Mas o corte para a cena seguinte demonstra que ele cedeu. E por aí vai.

VEJA O TRAILER:

Missão no Mar Vermelho (The Red Sea Diving Resort, 2019)
Direção e roteiro: Gideon Raff
Elenco: Chris Evans, Haley Bennet, Alessandro Nivola, Michael Kenneth Williams, Michiel Huisman, Alex Hassel, Greg Kinnear e Ben Kingsley
Duração: 2h09
Distribuição: Netflix

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