Brinquedo Assassino | Crítica

Otavio Almeida 26 de agosto de 2019 0
Brinquedo Assassino | Crítica

Chucky recupera o respeito inesperadamente como um robô de ficção científica apocalíptica

Por Otávio Almeida

Chucky é um exemplo de ícone pop que conquistou esse status sem a ajuda de seus filmes em termos de qualidade. Ok, o original de 1988 é legal, mas suas duas sequências são fracas. Depois disso, o personagem voltou em outra franquia (pior ainda) e fazendo piada de si mesmo em A Noiva de Chucky, O Filho de Chucky e por aí vai. Mas não temam: Chucky ressurge com tudo para resgatar o respeito que é seu de direito, mas com o primeiro filme decente desde o original.

O remake de Brinquedo Assassino (Child’s Play, 2019)… Ops, vamos começar de novo. É um reboot de Brinquedo Assassino, afinal o roteiro do filme de 88 não foi filmado. Mesmo que inspirado no original, há um texto inédito como base para o diretor Lars Klevberg. No entanto, fico imaginando seus realizadores no processo de criação. “Vamos reinventar o Chucky, mas atualizando o boneco para os dias de hoje. Acho que precisa ser um robô com acesso à internet e capaz de se conectar a outros dispositivos.”

Uma boa ideia, vai. Mas com um pequeno erro conceitual na minha opinião. Apesar de facas, sangue e mortes (bem violentas por sinal), o novo Brinquedo Assassino é uma ficção científica com tendência apocalíptica bebendo na fonte das histórias de máquinas dominando a humanidade. Não um filme de terror. Por esse detalhe, que faz toda a diferença, não posso considerar esse filme superior ao original. Mas ele chega perto.

Brinquedo Assassino tem uma premissa ridícula e, ao mesmo tempo, de fácil comunicação com o público. Chucky é real nos filmes, mas representa o lado sombrio da criança. A materialização de seus pesadelos e pensamentos impuros. Atitudes perigosas geralmente derrotadas para a inocência dominante. Só que o Chucky raiz com voz de Brad Dourif pode ser completamente de plástico, mas como sua origem é sobrenatural, temos um filme de terror. Por mais que o reboot também possa ser visto como um exemplar do gênero, a inspiração brotou e foi desenvolvida pela ficção científica.

Temos outros casos semelhantes, como o de Alien: O Oitavo Passageiro, que é um filme de horror feito no espaço. Porém, diferente do clássico de Ridley Scott, obviamente o reboot de Brinquedo Assassino não inventou a roda.

Chucky_

Mas é um bom filme, inesperadamente bem-humorado e divertidíssimo. Esteticamente, um longa muito mais requintado que original, o que combina com a roupagem atual de Chucky, um robô como outros de sua linha à venda nas melhores lojas. Mas vem zoado de fábrica graças às consequências de mão de obra escrava (legal citar isso) e assédio moral para cima do funcionário, que decide se vingar da empresa. Imagine se isso vira moda! Não acho tão difícil já que patrões esculachando funcionários é o que não falta. Bom, Chucky vai parar na casa de uma mãe solteira ou viúva; o filme não deixa claro, mas basta saber que ela é a magnífica Aubrey Plaza. Seu filho, Andy (Gabriel Bateman), não me parece ter idade para querer o boneco, mas Chucky tem wi-fi, então OK.

O mais curioso do roteiro (e o que torna o filme tão divertido) é acompanhar todo o aprendizado de Chucky. Como um bebê, ele observa, repete palavras, arrisca pôr em prática os ensinamentos da vida e evolui cenas após cena. Bem mais rápido que um bebê, claro, mas você entendeu. Por exemplo, Chucky descobre que matar pode ser divertido após ver O Massacre da Serra Elétrica 2 e Andy rindo do filme com seus amigos. Ou seja, a inteligência artificial de Chucky entende que isso pode deixar Andy feliz. Da mesma forma que eliminar aqueles que o deixam infeliz, ameaçam seu bem-estar (como faz o zelador voyeur) ou, mais tarde, por puro ciúme. Enfim, devemos proteger e buscar o melhor para nossos amigos, não? Mesmo que a vítima seja um gatinho que arranhou o menino num momento tradicional de stress felino. Mas vai explicar isso para o Chucky.

A sacada de testemunhar a “educação” de Chucky pode fazer o espectador sentir pena do brinquedo em algumas cenas e, talvez, compreender suas reações (mesmo que muitas delas sejam completamente discutíveis do ponto de vista ético, digamos assim).

O boneco tem um trabalho de dublagem diabólico de Mark Hamill, que repete algumas técnicas utilizadas para compor a voz do Coringa dos desenhos por um bom tempo. Mas não podemos negar que funcionou também em Chucky. Sua presença ainda rende ótimas menções a Luke e Han Solo.

Ainda sobre Chucky aprendendo, falei sobre máquinas, androides se revoltando contra o Homem, mas também vale citar a recente trilogia de Planeta dos Macacos. A evolução de Caesar dialoga com os passos dados por Chucky. As intenções podem ser diferentes, mas caminham para finais similares.

De qualquer maneira, o novo Brinquedo Assassino pode parar aqui. Agora que o respeito voltou, vamos combinar que isso é melhor que arriscar um retorno do boneco ao pastiche com uma espécie de Planeta de Chucky.

PS: Foi só comigo ou a cena com Chucky atrás da porta da geladeira foi influência de E.T.?


VEJA O TRAILER:

Brinquedo Assassino (Child’s Play, 2019)
Direção: Lars Klevberg
Roteiro: Tyler Burton Smith
Elenco: Aubrey Plaza, Gabriel Bateman, Mark Hamill, Brian Tyler Henry, David Lewis, Ty Consiglio, Beatrice Kitsos, Marlon Kazade, Carlease Burke, Tim Matheson, Trent Redekop
Duração: 1h30
Distribuição: Imagem Filmes

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