Quentin Tarantino não tem a obrigação de explicar “Era uma Vez em… Hollywood”

Otavio Almeida 23 de agosto de 2019 2
Quentin Tarantino não tem a obrigação de explicar “Era uma Vez em… Hollywood”

Carta aberta aos ofendidos: Quentin Tarantino não tem a obrigação de explicar suas escolhas em Era uma Vez em.. Hollywood da mesma forma que Martin Scorsese foi cobrado e não teve a obrigação de explicar as polêmicas de O Lobo de Wall Street há cinco anos.

Você tem todo o direito de não gostar de um filme por n razões, mas é o fim da picada execrar artistas que refletem suas próprias experiências e visões de mundo nas telas. Tanto Era uma Vez em… Hollywood quanto O Lobo de Wall Street despertaram a ira do público que patrulha o politicamente correto, mas antes de prosseguir, tenho um ponto: o cinema cutuca e abala desde sempre, principalmente em seu circuito alternativo.

Acontece que os filmes de Tarantino e Scorsese ganharam distribuições dignas de produções mainstream e o grande público se interessou, teve acesso, pagou ingresso e sobreviveu para contar. E repercutir a visão de cada um especialmente nas redes sociais, o boca a boca mais eficiente da atualidade. Bem ou mal, seja por causa do apelo de Leonardo DiCaprio ou não, o importante é que as pessoas viram e continuam vendo filmes como Era uma Vez em… Hollywood e O Lobo de Wall Street numa época em que só vamos aos cinemas para ver blockbuster ou preferimos responder se vimos ou não certo filme com outra pergunta: “Tem na Netflix?”

A indústria está mudando e precisa de diversidade, mas não esperem que essas mudanças sejam lideradas por cineastas que surgiram no século passado. Cobrar ajustes nas filmografias de diretores tão autorais quanto Martin Scorsese e Quentin Tarantino é perda de tempo.

Não sei se todo mundo sabe disso, mas o cinema nem sempre precisa dar lição de moral nem qualquer filme pode ser exibido em sala de aula. A sétima arte é muito mais que isso e quem conhece os trabalhos de Tarantino e Scorsese tem a exata noção do que eles representam.

O Lobo de Wall Street é inspirado na vida de um personagem real (Jordan Belfort), safado, bandido e sem vergonha, que tratou mal as mulheres e enriqueceu se aproveitando da confiança de seus clientes. Um ser desprezível, certo? Mas Scorsese fez um filme que reflete nossa ganância e ambição pelo poder. Um filme que reflete tudo isso nas atitudes do protagonista em três momentos: ascensão, queda e redenção.

ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD_2

Era uma Vez em… Hollywood também é inspirado em uma época que existiu. Mas uma época que existe na cabeça de Quentin Tarantino. Só ele poderia fazer esse filme. Ok, talvez Martin Scorsese. Não, acho que apenas Tarantino mesmo. Estamos falando da indústria máxima do entretenimento em 1969 e não em 2019. Um ambiente branco, sexista, racista. Ok, o filme é a ilustração de um sonho do diretor, então ele poderia incluir minorias ao invés de fechar a câmera na bunda das mulheres e idolatrar a imagem de Bruce Lee. Ou poderia dar mais falas para Margot Robbie, mas ele transforma Sharon Tate numa santa, uma imagem, um símbolo. Só não me venham dizer que ele preferiu endeusar uma atriz branca, loira e rica no lugar de optar por mais diversidade no elenco. Vocês sabem o que aconteceu na vida real, certo?

Mas, gente, Tarantino fez Django Livre. Esqueceram? E ele dá espaço para as mulheres em seus filmes. É o diretor de Kill Bill, Bastardos Inglórios, Jackie Brown e À Prova de Morte. Acho que ele não precisa se explicar nem tem a obrigação de fazer os mesmos filmes eternamente. Ah, sim. Reclamam também da violência masculina no final de Era uma Vez em… Hollywood com duas personagens femininas. Mas… não vou me justificar, mas vocês sabem de quem estou falando, não? E, de novo, isso é um filme de Quentin Tarantino. Ele é homem, vive com a cabeça no passado e não vai mudar.

É melhor cobrar de cineastas engajados e filhotes deste século. Precisamos deles e delas. O que não precisamos é de artistas explicando suas contribuições para a arte, porque toda vez que isso acontece, o cinema morre um pouquinho.

Espero que isso chegue aos irmãos Anthony e Joe Russo.

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 25 de agosto de 2019 às 11:07 AM -

    Assisti ontem a este filme, Otavio. Confesso que me incomodei com vários aspectos da obra. Entretanto, é inegável que o filme tem aspectos técnicos muito bons e um elenco competente. Após assisti-lo, não acho que seja fundamental para a plateia ter o entendimento sobre quem foi Sharon Tate e o trágico destino que ela teve – até mesmo porque a intenção de Tarantino foi não se debruçar sobre isso.

  2. Otavio Almeida 26 de agosto de 2019 às 11:23 AM -

    KAMILA: Oi, Kamila. Eu acho que é preciso saber o que aconteceu com Sharon Tate. Do contrário, a personagem dela ficaria mesmo largada na história e sem propósito. E o Tarantino realmente confia que sabemos. Bjs!

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