Ad Astra | Crítica

Otavio Almeida 30 de setembro de 2019 3
Ad Astra | Crítica

James Gray leva Brad Pitt aos limites do universo para mostrar que a felicidade está mais perto que imaginamos

Por Otávio Almeida

Faz parte do imaginário coletivo conjecturar que não estamos sozinhos na imensidão do universo. Ou que Deus está em algum lugar olhando por todos nós. Mas e se a resposta for justamente o oposto? E se estivermos, de fato, sozinhos? E se esse pontinho azul no meio do nada for tudo aquilo que resta para cada um de nós? Não deveríamos nos preocupar mais com as pessoas que amamos? Ou com nosso meio ambiente? A natureza? Não deveríamos dizer mais vezes “eu te amo”? Ou com as coisas que nos deixam felizes? Não seria mais prudente focar no aqui e agora? E tentar descobrir quem realmente somos? Essas e outras questões existenciais movem Ad Astra (2019), uma ficção científica inspiradora, reflexiva e intimista do incrível James Gray.

O diretor de Os Donos da Noite e Amantes usa o gênero para fazer seu cinema de autor. Ele pode ir ao espaço, mas degue falando sobre amor, sua recusa e aceitação. Vai ao espaço, mas continua falando sobre homens que não expõem sentimentos, como eles podem vencer essa barreira e o quanto precisam se desprender (literalmente) do cordão umbilical eternamente conectado aos pais. Brad Pitt empresta seus olhos para James Gray nessa jornada sentimental.

Ele é Roy McBride, filho do também astronauta Clifford McBride (Tommy Lee Jones), que desapareceu décadas atrás após embarcar numa viagem interestelar em busca de vida extraterrestre. Mas quando fortes sobrecargas de energia atingem a Terra e ameaçam destrui-la aos poucos, os americanos descobrem que a fonte pode vir dos arredores de Netuno. Mais precisamente da nave de Clifford. Seria fruto de um acidente? Ou a nave está enviando esses raios cósmicos para nosso planeta de forma proposital?

É quando começa a investigação de Roy, que vai da Terra à Lua; da Lua a Marte; e de Marte a Netuno. É quando Ad Astra demonstra aos poucos pelo roteiro de Ethan Gross (Fringe) o quanto estabeleceu um universo próprio; um futuro em que jornadas ao espaço são corriqueiras, em que ir à Lua é rotina de quem viaja por motivos de negócios ou prazer. Pois é, a Humanidade colonizou a Lua e a encheu de futilidades e o habitual espírito consumista (tem Applebee’s e Subway lá), mas também confrontos por poder, território e dinheiro, afinal levamos nossa ganância para lá. No caso de Marte, ainda há muito mais para explorado. Então, o planeta parece um centro burocrático cheio de papeladas para administrar e assinar. Nosso DNA de explorador ferve e novas fronteiras pedem desbravamento e é por isso que Clifford se lançou ao espaço, deixando assim sua família para trás.

Logo, apesar de criar um mundo particular que poderíamos desejar ver um pouco mais do que é mostrado no filme, Ad Astra estabelece esses cenários não para destrinchá-lo, mas para utilizá-lo como meio para a história de James Gray e Ethan Gross ser contada. E a verdadeira trama é o vazio que ficou na relação interrompida entre pai e filho. Por isso, Roy se fecha para os sentimentos e, como quase todos nós, acredita ser igual ao pai.  Vive concentrado no trabalho, dá as respostas que o teste psicológico exigido pela profissão quer ouvir, foge de relacionamentos, laços e do próprio coração. Como tudo tem um preço, essa ausência emocional mostra que não é definitiva e os sentimentos se atropelam quando Roy se vê obrigado a pensar 100% no pai quando não há mais ninguém por perto na solidão do espaço.

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Por mais que James Gray tenha construído um mundo rico em detalhes para Ad Astra, repare como a tentação de se perder por ele é ignorada. Repare como Roy passa quase todo o filme em cenários fechados; seja dentro das naves ou quartos ou salas. Repare como o universo e as estrelas propõem grandiosidade, inúmeras possibilidades e fronteiras invisíveis, mas o que realmente reflete é solidão, isolamento, confinamento, uma prisão para os nossos mais profundos sentimentos. Repare como a câmera busca excluir o que está em volta aproximando a lente do rosto de Brad Pitt e suas rugas.

Filmes que usam o espaço como metáfora para a descoberta do eu interior não são novidades. E é impossível ver um filme assim e não lembrar da referência máxima que é 2001: Uma Odisseia no Espaço. Mas reduzir James Gray ao tradicional “quero ser Stanley Kubrick” me parece um argumento fraco quando estamos falando de um cineasta que é autor. Assim como me parece pobre demais dizer que Ad Astra é um Apocalypse Now no espaço. Sim, há algo ali de Coração das Trevas, obra de Joseph Conrad que inspirou o clássico de Francis Ford Coppola, mas o caminho traçado por Gray pretende outras reflexões e conclusões.

Somente nesta década tivemos Interestelar e O Primeiro Homem viajando aos cafundós do universo para o protagonista encontrar a si próprio. Ou fazer as pazes consigo mesmo. O filme de Christopher Nolan é ficção científica, enquanto o de Damien Chazelle é baseado em fatos. Mas guiados pelo mesmo propósito de Ad Astra: a relação entre pais e filhos. Seria repetitivo se James Gray fosse tão brega quanto Christopher Nolan na conclusão. Ou totalmente frio como Damien Chazelle no filme sobre Neil Armstrong – daqui, porém, ele pega emprestado a ideia de que astronautas são seres humanos falíveis, imperfeitos no cumprimento do dever. Não heróis. Também tem um pouco de ação aqui e ali, como em Interestelar. Mas ao contrário de Nolan, Gray usa a ação para manifestar a erupção de sentimentos que Roy pensa controlar. Medo, tensão, dúvida, perda, solidão. Se Roy joga para dentro, como Brad Pitt faz em sua soberba atuação introspectiva, James Gray resolve jogar isso para fora com imagens.

É muito difícil fazer um filme como Ad Astra e não ceder de vez em quando às fórmulas de Hollywood, mas James Gray utiliza a máquina do cinemão para seguir em frente como James Gray, jamais traindo seus princípios. Um espelho do que ele pretende para Roy em sua jornada iluminada pela fotografia magnífica de Hoyte van Hoytema (O mesmo de Interestelar) e a belíssima trilha contemplativa de Max Richter. Um senso épico que sugere um filme mais complicado do que ele é. Poderia desenvolver viagens no tempo, dimensões paralelas, realidades alternativas e tudo que você espera de um filme assim. Mas a beleza de Ad Astra é valorizar o menos é mais, ser mais simples do que parece. Numa época em que relacionamentos são cada vez mais superficiais e distantes, Ad Astra diz que a felicidade está mais perto que imaginamos e que não é fracasso nenhum decidir amar e ficar em seu próprio mundinho. Trabalho de um diretor que acha que o maior épico acontece na alma humana e não lá fora. Trabalho que não dá para avaliar de imediato, porque é o tipo de filme capaz de crescer com o tempo e em diferentes fases das nossas vidas.

VEJA O TRAILER:

Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra, 2019)
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray e Ethan Gross
Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland, Ruth Negga, Liv Tyler, Kimberly Elise, Loren Dean, Donnie Keshawarz, Sean Blakemore
Duração: 2h04
Distribuição: Fox

3 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 1 de outubro de 2019 às 9:34 AM -

    Ainda não assisti, mas, como se trata de um filme de James Gray, cineasta que eu nunca consegui ver na grande tela (só em serviços de streaming ou DVD), não posso perder! :)

  2. Paulo Ricardo 1 de outubro de 2019 às 4:54 PM -

    Adorei sua crítica!

  3. Otavio Almeida 3 de outubro de 2019 às 10:27 AM -

    KAMILA: Se vc gosta dele, não perca de jeito nenhum no cinema.
    PAULO: Muito Obrigado!!

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