Festival do Rio, “Marighella” e a decomposição do nosso cinema

Otavio Almeida 13 de setembro de 2019 1
Festival do Rio, “Marighella” e a decomposição do nosso cinema

Eis a realidade enquanto brincamos de “impacto cultural” nas redes sociais: nesta quinta (12), o Festival do Rio anunciou pelas redes sociais que o evento pode ser cancelado devido à dificuldade em levantar recursos para a edição deste ano programada para o período de 7 a 17 de novembro.

Foi uma estratégia para causar discussão entre cinéfilos que apoiam o festival. E o “impacto cultural” vem sendo relevante, afinal é um dos tópicos mais repercutidos desde que o post entrou.

O festival enfrentou problemas financeiros no ano passado e foi adiado para novembro quando a data tradicional era outubro. E o que aconteceu em abril de 2019 para piorar a situação? A Lei Rouanet sofreu mudanças; entre elas o teto de R$ 6 milhões para festivais, e o dinheiro até o momento está curto para bancar um acervo que honre a história do evento cinematográfico no Rio.

Mesmo com a mobilização dos fãs nas redes sociais, sugerindo soluções como crowdfunding, a diretora do festival, Ilda Santiago, descartou o financiamento coletivo e o fato é que com um aporte de R$ 500 mil da Globo Filmes, o Festival do Rio ainda precisa de R$ 3,5 milhões para acontecer.

Mas, olha, durante a campanha presidencial do vencedor das eleições, a genta sabia que isso poderia acontecer. Não exatamente o cancelamento do Festival do Rio. Pelo menos, não de maneira tão rápida. Mas falo de sua banalização com um número menor de filmes capazes de cutucar e fazer as pessoas pensarem. O que está acontecendo não é falta de sorte. Não é por acaso.

Aliás, Marighella, filme dirigido pelo grande Wagner Moura, cancelou sua estreia nos cinemas em 20 de novembro, conforme divulgaram a produtora O2 Filmes e a distribuidora Paris Filmes. O longa teve ótima recepção no Festival de Berlim, em fevereiro, mas não consegue chegar aqui. Estranho, não?

A estreia estava prevista para abril, mas foi adiada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Havia esperança de que o filme estivesse no Festival do Rio, mas como um roteiro sobre um guerrilheiro de esquerda no período da ditadura militar poderia ver a luz do dia em tempos tão sombrios no Brasil? Um país onde calar e proibir são imposições cada vez mais comuns. Um país que tem como presidente um defensor do Golpe de 1964 e a ditadura.

A O2 e a Paris Filmes alegaram falta de tempo no meio de toda a burocracia da Ancine. Mas você precisa que o contrato com o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) estava demorando demais para sair e, por isso, a O2 solicitou a liberação da verba de comercialização de Marighella antes do contrato ser assinado. É óbvio que o pedido foi negado.

Vale lembrar que o atual presidente do Brasil apresentou um projeto de lei para cortar mais de 40% no orçamento da FSA já no ano que vem. E, em agosto, ele demitiu o diretor da Ancine e não escondeu de ninguém sua intenção em buscar um novo profissional para o cargo que tenha uma visão mais evangélica.

Enfim, tomara que Marighella possa ser visto no país de forma legal e antes da Tela Quente. Os produtores e a Paris Filmes prometem continuar trabalhando para o filme chegar um dia aos cinemas. Mas como a situação não está fácil, quem sabe uma plataforma de streaming se adianta para ajudar?

Só mais uma coisa: ainda bem que Bacurau escondeu sua trama durante a divulgação do filme. Como uma canção clássica de Chico Buarque, sua mensagem está muito bem escondida nas entrelinhas.

 

Entre mortos e feridos, aqui está o comunicado do Festival do Rio:

O Festival do Rio – após 20 anos de existência e sucesso de realização para o audiovisual brasileiro e internacional – passa por seu maior desafio em termos financeiros.

Estamos buscando apoio junto a várias empresas e parceiros com interesse na viabilidade do Festival do Rio e que apostam também no Estado e na Cidade do Rio de Janeiro.

No entanto, vivemos a possibilidade real de cancelamento do nosso evento, com todas as perdas que tal decisão acarretará para o cinema brasileiro, para todo o mercado audiovisual e ainda para cidade e o país.

Decidimos tornar pública e oficial esta realidade, pois dentro de poucos dias, chegará o momento de bater o martelo caso não tenhamos os recursos necessários para a realização, ainda que em formato compacto, do Festival do Rio, com data prevista de 7 a 17 de novembro.

Este é um apelo final!

One Comment »

  1. Kamila Azevedo 16 de setembro de 2019 às 11:35 AM -

    O apelo do Festival do Rio é bastante pungente. Aliás, me recuso a crer que um evento do porte desse festival, com os anos de trabalho e de história que possui, não está conseguindo apoiadores para a sua realização. Isso é muito estranho e um reflexo desses tempos doidos que estamos vivendo!

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