IT: Capítulo Dois | Crítica

Otavio Almeida 8 de setembro de 2019 0
IT: Capítulo Dois | Crítica

Quando o próprio filme diz que o final é ruim, quem sou eu para discordar?

Por Otávio Almeida

IT: Capítulo Dois é como De Volta para o Futuro: Parte II: não se desconecta do original. A diferença é que Robert Zemeckis e Steven Spielberg se deram bem com a experiência graças à liberdade proporcionada por um roteiro original, enquanto Andy Muschietti se deu mal por respeitar o livro de Stephen King. E olha que IT: Capítulo Dois repete várias vezes a dica: “o final é ruim!”

Mas vamos explicar o contexto sem spoilers graves. Não, não estou brincando, porque a fala está realmente no filme. Um dos personagens do filme anterior se torna escritor na vida adulta, como Stephen King. Em sua primeira cena, ele está nas filmagens da adaptação de uma de suas obras e descobre que o final será mudado para a versão de cinema. Ele fica irritado com a decisão do diretor interpretado pelo lendário cineasta Peter Bogdanovich, de A Última Sessão de Cinema. Mas o comandante do filme peita o autor e diz em sua cara que o final original é ruim e ele precisa ser alterado para o filme.

Bom, conhecendo a conclusão e a metade final (mais fraca) de IT, o livro, acreditei nesta cena que a fala de Bogdanovich era a voz do diretor verdadeiro do longa, Andy Muschietti, avisando aos fãs mais radicais que viria mudança por aí para o bem de seu próprio filme. Ledo engano! Pois ficou somente como uma piada interna em relação ao que costuma dizer sobre os finais de Stephen King, que cria ótimas histórias de terror, mas geralmente não sabe muito bem como terminá-las. Só que, no fundo, não é piada. É fato. King pode espernear sobre a versão de Stanley Kubrick para O Iluminado, mas ainda bem que o cineasta ignorou seus chiliques e entregou um clássico do cinema com sua cara.

Então, por mais que Muschietti mude uma coisa ou outra, o destino está lá. E, gente, depois de um primeiro filme delicioso, em que Pennywise, o palhaço dançarino, era um Freddy Krueger dessa nova geração, somos apresentados no Capítulo Dois a rituais indígenas, seres cósmicos e uma aranha gigante. WTF! Ainda bem que Muschietti deixou de fora a tal tartaruga que enfrenta o palhaço no livro, mas não faz o menor sentido com o que vimos até aqui. Pelo menos se o primeiro IT introduzisse algumas dessas ideias, o choque não teria sido tão abrupto no sentido de ruindade criativa.

E não entendi como IT: Capítulo Dois tem menos para contar em relação ao primeiro, mas ainda assim consegue ser meia hora mais longo que o original, embora passe a sensação de que tenha cerca de uma hora a mais de tão arrastado e modorrento. E se Bill Skarsgard recebeu merecidos elogios pela sua caracterização de Pennywise no longa anterior, dispensando comparações com o palhaço icônico de Tim Curry na minissérie (e não filme) dos anos 80, em Capítulo Dois ele transmite a impressão de aparecer ainda menos.

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Isso porque Pennywise está preocupado em devorar criancinhas, como sabemos, e o Clube dos Otários cresceu, afinal a trama agora acontece 27 anos depois. O que resta? Adultos reunidos tentando relembrar a infância e seus pesadelos antes do confronto final com Pennywise. E isso leva um bom tempo. Acho que Andy Muschietti poderia ter polido mais o roteiro de Gary Dauberman que tem a cara dos filmes que têm medo de mexer muito no livro original. Agora, fica clara a falta que fizeram Cary Joji Fukunaga e Chase Palmer, que assinaram o texto do Capítulo Um ao lado de Dauberman, e limaram do filme anterior aquela sensação prolixa de adaptações de obras famosas que não podem mudar muito para desagradar o autor e os fãs. Mas cinema é cinema, livro é livro. Eu disse aqui que o Capítulo Um poderia antecipar alguns pontos dessa continuação, como rituais (!) e aranhas (!!), mas se não fizeram isso antes, seria bom seguir sem isso, não? Desculpa, mas ficou ridículo! Há o lapso ainda quanto a certas atualizações. Pessoal, estamos em 2019 e todos os personagens cresceram ricos, exceto o único negro da história. Lamentável.

De terror, também quase não há nada. O primeiro IT é um filme do gênero para crianças. Uma das principais críticas ao longa de 2017 é que ele não assusta muito. Mas, caramba, perguntem às crianças de até 10 anos se elas têm medo de Pennywise. Sei que IT não tem censura liberada para essa faixa de público, mas quem nunca assistiu a filmes “proibidos”? Agora, IT: Capítulo Dois, com os personagens crescidos, tinha a obrigação de assustar MESMO. Talvez com mais força em relação ao que amedronta adultos, como perda ou morte. Mas esses medos “invisíveis” também são explorados de forma fraca, porque o mais importante aqui é relembrar o Capítulo Um à exaustão. Nem é preciso rever o anterior para embarcar no 2, porque esse filme faz questão de repassar tudinho até a trama terminar a la O Hobbit para jogar qualquer intenção de horror na lata do lixo.

De qualquer forma, IT: Capítulo Dois acerta na escolha do elenco adulto e livra o filme de ser considerado como desprezível. Consagrados como Jessica Chastain e James McAvoy deixaram vaidades de lado para viverem uma sequência como se fosse o filme de suas vidas, mas destaco especialmente Bill Hader como Richie e Jason Ransone como Eddie. Fantásticos! E gosto como o filme acerta na veia quanto à nostalgia. Não no que diz respeito a saudades de um longa que tem apenas dois anos de diferença, mas falo da sensação de lembrar boas e más experiências da infância, como as merdas feitas pelos nossos pais que deixaram sequelas ou amizades que nunca mais vimos ou amores que ficaram no passado.

No entanto, não ficou muito legal ilustrar algumas memórias da infância do Clube dos Otários, afinal os garotos estão dois anos mais velhos e a maquiagem digital para deixar todos eles com carinha de 2017 não deu tão certo. Às vezes, fiquei pensando que estava vendo um desenho animado nos rostos das crianças. Como a Marvel entregou melhor esse trabalho digital de rejuvenescer atores (em Homem-Formiga e Capitão América: Guerra Civil), parece que esse processo foi feito às pressas em IT: Capítulo Dois. Será que não poderiam mostrar mesmo os meninos dois anos mais velhos?

VEJA O TRAILER:

IT: Capítulo Dois (It: Chapter Two, 2019)
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone, Andy Bean, Bill Skarsgard, Jaeden Martell, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Chosen Jacobs, Jeremy Ray Taylor, Wyatt Oleff
Duração: 2h49
Distribuição: Warner

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