Midsommar | Crítica

Otavio Almeida 18 de setembro de 2019 2
Midsommar | Crítica

Filme de terror pagando de intelectual quer provocar e deixar o espectador tenso, mas arranca risadas e tédio 

Por Otávio Almeida

Dani (a ótima Florence Pugh) sofre de um nível incontrolável de ansiedade, vive preocupadíssima com os pais; mais ainda com as tendências suicidas da irmã e, por isso, não esconde o quanto é apegada a Christian (Jack Reynor), o namorado que não aguenta mais a menina e pensa num jeito de dar o fora nela. Mas uma tragédia acontece momentos antes do fim do namoro e o cara resolve ficar com Dani por pena. Ao lado de um grupo de amigos, eles embarcam para uma viagem à Suécia, mais precisamente rumo a Hårga, uma cidadezinha isolada onde os olhos só enxergam casas, pessoas e costumes parados no tempo e cercados somente pela natureza. Além disso, a comunidade prepara um festival para celebrar paz, amor e… depende do ponto de vista, mas é o motivo que leva o grupo ao local.

Conduzidos por um dos amigos, Pelle (Vilhelm Blomgren), que cresceu no lugar, Christian (nome sugestivo, não?), Josh (William Jackson Harper) e, principalmente, Mark (Will Poulter) querem aproveitar, estudar e tirar o melhor de Hårga e seus habitantes, enquanto Dani tem a oportunidade ideal para recomeçar. E, bom, isso é Midsommar (2019).

É a jornada de Dani que importa. Se o namorado e os amigos estão em Hårga por uma razão, ela não sabe realmente o que está fazendo ali. 100% fragilizada, a garota é conduzida por essa viagem de aceitação da vida e da morte, das pessoas que nos valorizam de verdade e o rompimento com as dores que nos prendem ao passado. Lindo, não? Seria se não soubéssemos que o filme é escrito e dirigido por Ari Aster, responsável por um dos melhores filmes de terror da década, Hereditário.

Antes mesmo da chegada à Suécia, ele abre o filme chutando a porta ao ilustrar o resultado da tal tragédia descrita acima, que dialoga visualmente com a cena da decapitação de uma menina em Hereditário. Enfim, esse é só o começo da proposta de Ari Aster, que concebeu Midsommar como uma terapia sobre finais de relacionamentos escrita por linhas tortas.

Quando digo que “isso é Midsommar”, não estou avacalhando o filme. Mas é exatamente o que Aster propõe: um estudo de personagem onde o horror age como um ritual de superação para exorcizar todo o mal e os conflitos que dominam a cabeça e o coração da protagonista.

Quem espera monstros, perseguições e sustos movidos à música surgindo no volume máximo após um silêncio profundo tem tudo para se decepcionar. Diferente de Hereditário, o mal não tem origem sobrenatural, mas nas reações causadas pelo isolamento, uma sociedade entregue às próprias leis e sortes e a devoção exacerbada em relação à fé. São ideias bacanas e Midsommar é um filme de terror à luz do dia, um trabalho de autor e não um produto. Mas tudo tem seu preço.

MIDSOMMAR_

Aster não precisava de longas duas horas e meia para contar uma história em que todo mundo tem noção de como terminará assim que os personagens pisam na grama de Hårga. Ou para quem viu O Homem de Palha e seu remake com Nicolas Cage. Aster não precisava dar um peso intelectual a um filme com diálogos pouco inspirados e situações dramáticas rasas. Como ele filma muito bem, Midsommar pode parecer mais do que realmente é. Não há surpresas e, basicamente, entrega a mesma conclusão de Hereditário. Além de um final inesperado, seu filme anterior tem uma jornada mais intrigante, envolvente, agonizante. Falta a Midsommar um pouquinho (só um pouquinho) da estupidez habitual do gênero e isso não reduziria a inteligência de Ari Aster. E quando falo em estupidez, não estou me referindo a personagens fazendo coisas estúpidas só para morrerem um após o outro (isso sim tem em Midsommar). O fato é que não adianta encher o filme de sutilezas se o desenvolvimento do fiapo de história não pega o espectador pela jugular com uma atmosfera hipnotizante. Mesmo que se mostre explícito aqui e ali na violência, embora a câmera fuja do gore na maioria das vezes, a tensão pretendida por Aster não resulta numa entrega final impactante. Um filme que trabalha muito bem o que eu coloquei neste parágrafo é Hereditário. Ou A Bruxa, de Robert Eggers. O diretor pode buscar um clima existencial, uma aura intelectual e outros caminhos dentro do gênero, mas precisa lembrar a plateia de vez em quando que estamos vendo um filme de terror de verdade. Do contrário, o tédio impera. Ou o ridículo.

Não sei se Ari Aster queria provocar, mas o efeito é inversamente proporcional à sua ambição na hora de causar espanto. Tirando a cena da tragédia familiar no primeiro ato, todos os momentos de Midsommar que pretendem exigir estômago forte do espectador também podem causar risos involuntários a quem não está assistindo um exemplar do gênero pela primeira vez. Como não rir na cena de sexo mais ridícula dos últimos tempos? Pior não é rir de nervoso, mas por ter a certeza de que Aster cruzou a linha tênue que às vezes separa o horror do horroroso. E o urso, gente? Risos!! Sério mesmo que Ari Aster acha tão chocante encontrar “pelo” na comida? Ele nunca almoçou num belo PF? Seus personagens certamente não e acham isso mais bizarro do que viajar para um lugar afastado de tudo sem um mínimo de informação a respeito.

Assim como em Hereditário, toda a esquisitice em Midsommar afeta quem é de fora, porém é normal para quem está acostumado com essa realidade. A diferença é que nossa compostura se perdia assim como a de Toni Collette ao descobrir cada segredo de Hereditário. Em Midsommar, por mais que o filme tenha cenas de violência física e psicológica, o queixo do espectador não cai no chão como acontece com os personagens americanos na tela. Ari Aster pode segurar nossa atenção até o final, mas ao contrário de Hereditário, a recompensa não é equivalente à catarse de Dani. E sobre o que era mesmo Midsommar, como eu coloquei lá no início?

VEJA O TRAILER:

Midsommar (2019)
Direção e roteiro: Ari Aster
Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter
Duração: 2h27
Distribuição: Paris Filmes

2 Comments »

  1. Kamila Azevedo 22 de setembro de 2019 às 11:23 AM -

    Não assisti a “Midsommar” e nem pretendo! rsrsrs

  2. Otavio Almeida 25 de setembro de 2019 às 10:21 AM -

    Hahahhaha… Não perca seu tempo. Bjs

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