Rambo: Até o Fim | Crítica

Otavio Almeida 23 de setembro de 2019 0
Rambo: Até o Fim | Crítica

Ruim até o fim, quinto filme da série prova que o cinema do século 21 não precisa do Rambo

Por Otávio Almeida

Em Rambo: Programado para Matar, um ex-combatente que lutou pelos EUA na Guerra do Vietnã. Seu nome é John Rambo (Sylvester Stallone), que voltou para casa e foi tratado como lixo pelas autoridades de uma cidadezinha que estava em seu caminho. Traumatizado e com a mente presa eternamente aos horrores dos campos de batalha, Rambo enfrentou os policiais locais para sobreviver e sem matar um deles sequer. Foi sua guerra particular, mas terminou atrás das grades. Traído pelo sistema, ficou a certeza de que guerra é uma solução política e que o país não dá a mínima para quem vive ou morre. Mas, então, veio Rambo II: A Missão, que colocou o protagonista em sua segunda chance numa operação de resgate a prisioneiros americanos no Vietnã. O filme é visto como o exército de um homem só, com Rambo “vencendo” sozinho a guerra que seu país não conseguiu vencer. Não é bem assim, afinal a ideia do primeiro é mantida e Rambo é mais uma vez traído em plena Era Reagan. É um filme menos intimista e mais espetacular, que ditou regras nos anos 80, popularizando de vez os filmes de ação com atores brucutus de academia. Serve como um complemento em relação ao primeiro Rambo.

Rambo III é mais farofa. Tentou repetir a fórmula do segundo filme no modo “maior e melhor”, colocando o personagem no Afeganistão (!) tomado pelos soviéticos no final dos anos 80. Uma bagunça, pois essa guerra nunca foi sua e a única desculpa para seu envolvimento no conflito foi resgatar seu amigo e mentor, o Coronel Trautman (Richard Crenna). Foi pessoal, ok, mas Rambo III serviu para provar que nada mais fazia sentido e que aquilo foi o fim, certo? E o fim de uma era. Bola pra frente, Sly!

Mas não foi bem o que aconteceu. Sylvester Stallone é esse cara legal, ídolo de muitos, ícone da cultura pop, herói de ação e eterno tanto como Rocky Balboa quanto John Rambo. Poucos conseguem ter o nome ligado a dois personagens enraizados no imaginário coletivo. Temos Harrison Ford como Indiana Jones e Han Solo, por exemplo. Mas são poucos. Só que Stallone nunca seguiu em frente. Deslocado no tempo, insiste até hoje num tipo de filme que não tinha mais espaço. Fiel aos velhos fãs, não pensa em evoluir nem em conquistar novas gerações. Entre diversas bombas de lá para cá, ele trouxe o personagem de volta em Rambo IV num filme de fundo de quintal que ninguém lembra. Sorte que, numa dessas repetições programadas em sua carreira, Stallone foi dirigido por um cineasta brilhante como Ryan Coogler em Creed, a ótima reimaginação/continuação de Rocky. Já Creed II não teve Coogler na direção e o resultado foi mais do mesmo. Não ruim, mas repetitivo, reciclado, deslocado.

Se a decisão fosse apenas de Stallone, ele traria de volta Cobra e Tango & Cash. Mas enquanto isso não acontece, que tal ressuscitar Rambo mais uma vez? Pela trama e o histórico da série, você pode pensar que Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, 2019) apoia Donald Trump e sua guerra particular e preconceituosa contra imigrantes. Mexicanos malvados e americanos bonzinhos. Mas não é bem isso. O quinto Rambo é só ruim mesmo.

Rambo V_2

Ruim não. Péssimo! Nem é farofeiro como o terceiro nem tenta ser nostálgico como o esquecível quarto filme, que colocou Rambo por acaso no conflito Myanmar. Na verdade, o quinto longa é apolítico; coisa que Rambo nunca foi. Retira do personagem tudo que fez dele um ícone e o transforma numa máquina assassina em busca de vingança. É pessoal (de novo), mas contra traficantes mexicanos que causam uma tragédia em sua vida. Mas, ei, isso já acontece quando temos mais da metade do filme na tela. O roteiro não existe, os dois primeiros atos são modorrentos e descartáveis, cheios de falas e atuações péssimas. Nenhuma camada ou variação de personalidade é explorada. Os personagens são o que eles são e pronto. O arco dramático de Rambo? É completamente nulo, porque basta apagar a política do contexto para ver um Desejo de Matar piorado, com lampejos de violência gratuita e crueldade que geralmente testemunhamos em slashers ou torture porns. Você pode até concordar com o que o protagonista faz neste filme, mas precisa concordar que mataram qualquer traço que existia de humanidade na série. Antes, havia alguma decência ou um heroísmo na coisa. Até mesmo em Rambo IV, que é sofrível, porém melhor que esse aqui. Mas quem viu, sabe que o ex-soldado saiu do exílio, fez as pazes consigo mesmo e voltou finalmente para casa.

Ok, estou exagerando, porque o IV é fraco e, narrativamente, Rambo não tem muito para onde crescer desde o segundo filme, mas imagino que a intenção de Stallone e do diretor Adrian Grunberg tenha sido deixar o personagem sem propósito mesmo. Desgarrado de motivos políticos, Rambo se tornaria um monstro descontrolado, dominado pelo ódio, sedento por sangue e vingança, mas se esse foi o objetivo, ele foi desenvolvido porcamente, afinal o cara começa o filme achando que não consegue salvar todo mundo e termina a história da mesma forma.

Tinha como dar certo? Talvez se Rambo estivesse num roteiro em que ele mostrasse alguma ligação com os tempos atuais. Para não sair do contexto, talvez se envolvendo com imigrantes tentando chegar aos EUA. Ajudando, sabe? Ou o contrário: que ele realmente apoiasse Trump contra os mexicanos. Ora, pelo menos, teríamos algo para dizer e a discussão valeria a pena. Mas do jeito que está, não dê ao filme mais que ele merece, porque não sobra nada. É uma perda de tempo, um filme que não se justifica. Ou, melhor, justifica o que todos nós sabemos, menos Sylvester Stallone: Rambo é um símbolo da década de 80 e deveria ter ficado em sua época. Ele não tem nada a acrescentar a um mundo cerca de 30 ou 40 anos mais evoluído. Muito menos ao cinema atual.

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