Bacurau | Crítica

Otavio Almeida 5 de setembro de 2019 3
Bacurau | Crítica

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles misturam gêneros e influências, mas conseguem a proeza de entregar uma obra única e surpreendente

Por Otávio Almeida

Em seu terceiro filme (após O Som ao Redor e Aquarius), Kleber Mendonça Filho muda de ares. Segue em Pernambuco, mas sai da selva de pedra para desbravar Bacurau, uma cidadezinha no meio do nada, vista aqui como uma terra de ninguém a oeste do estado e castigada pelo sol e a seca. Mas enquanto exercita de forma ambiciosa sua narrativa flertando com diversos gêneros e influências, o cineasta jamais abdica de sua real intenção, que é a mensagem política escondida por trás de todas as imagens vistas no filme como resposta à atual situação do país.

Ele assina Bacurau ao lado de Juliano Dornelles para entregar uma trama que, desde sua primeira cena, não deixa a menor pista de como terminará. É tudo que precisamos no cinema de hoje, porque talvez todos os roteiros originais já tenham sido feitos. Então, reaproveitar gêneros à serviço de uma história pode resultar em algo que parece novo. Às vezes, sai como uma colcha de retalhos de outros filmes. O raro é ver um filme como Bacurau, que se vale de influências para entregar uma obra de caráter único. Neste caso é importante ter uma direção ciente daquilo que quer dizer, independente de sua paixão pelos filmes que inspiraram seu trabalho.

Poderíamos ligar Bacurau a westerns, filmes de invasões alienígenas, Os Sete Samurais (ou Sete Homens e um Destino), o cinema de guerra e até quando a ameaça está relacionada a zumbis deixando pessoas trancadas num shopping. Ávidos por comparações, costumamos caprichar nos exageros. Uma memória mais afiada ligaria Bacurau à Glauber Rocha, enquanto os mais novinhos diriam que Kleber Mendonça Filho adorou Mad Max: Estrada da Fúria (quem não adorou?). Mas não. Bacurau é Bacurau. Acredito que ditará as regras levando o cinema brasileiro para bem longe da mesmice e o incentivará a revisitar gêneros numa proporção vista no cinema argentino (para citar um mercado bem mais próximo que o de Hollywood). Então, que tal valorizar as visões de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles para variar um pouco? Deem crédito, até porque Bacurau é o único filme da história com Geraldo Vandré e John Carpenter na trilha. São essas misturebas que fazem a viagem valer a pena.

Enfim, o filme não para de surpreender. Quando começa, parece a “história de sempre” com a rotina de um povo sofrido, esquecido por Deus (e os políticos) e entregue à própria sorte. Mentira. O filme abre no espaço (sério) e a câmera entra lentamente na Terra, mais precisamente numa estrada que leva a Bacurau. Será que veremos extraterrestres? Calma, porque conhecemos a cidade, alguns de seus habitantes, seus costumes, alegrias e dificuldades, incluindo um governante que nada faz por eles, além de pedir votos e despejar “doações” como se fossem lixo. E livros estão no meio desse entulho, afina educação no Brasil é tratada como tal.

De repente, a virada do roteiro. Parece que entraremos numa ficção científica, mas não quero entregar as surpresas. Basta você saber que não sabe coisa alguma. Quando pensamos que matamos a charada, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles desdobram a trama em novas camadas. O que importa mais que toda essa miscelânea é o ditado clássico “o povo unido, jamais será vencido” e suas reflexões. Será que mudaríamos o país se realmente estivéssemos juntos contra a injustiça? Será que nos unimos somente quando a água bate no queixo? Não sei, mas ficam as perguntas: na hora H, quem é mais forte? Os opressores? Ou o povo? Antes de responder, lembre-se que quem nasce em Bacurau é gente.

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Bacurau é uma experiência que certamente permanecerá além da sala de cinema. É uma obra que precisa ser digerida, ainda mais para quem está habituado aos tipos de filmes que deram o nome a este site. Por exemplo, pode incomodar a indecisão do filme em estabelecer protagonistas ou uma montagem por vezes desleixada. Mas são execuções que justificam um cinema que não tem um cordão umbilical preso à padrões.

Para comparar com algo recente, cito o igualmente incrível Mandy, que me passou sensação semelhante, embora o filme de Panos Cosmatos estrelado por Nicolas Cage seja apolítico, enquanto Mendonça Filho e Dornelles estão muito claros quanto à posição política de Bacurau. Filmes que não querem ser como os outros e criam seus universos particulares, estranhos, sensacionais e desafiadores.

 VEJA O TRAILER:

Bacurau (2019)
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Elenco: Udo Kier, Sônia Braga, Karine Teles, Barbara Colen, Chris Doubek, Alli Willow, Johny Mars, Julia Marie Peterson, Antonio Saboia, Thomas Aquino, Brian Townes
Duração: 2h11
Distribuição: Vitrine Filmes

3 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 6 de setembro de 2019 às 8:56 AM -

    Gostei muito da sua resenha crítica, Otavio! O filme é difícil de definir. Acho que “Bacurau”, por boa parte do tempo, é uma obra sutil, mas que ganha uma força sobrenatural no seu ato final – que, pra mim, converge todo o significado do filme. Uma obra para poucos!

  2. Otávio Almeida 8 de setembro de 2019 às 4:02 PM -

    Muito obrigado, Kamila :) Bjs

  3. Christine 10 de outubro de 2019 às 11:50 PM -

    Gostei da sua análise. Não gostei no filme o excesso de clichês para explicar a ideia que os diretores queriam passar. Como se o público não pudesse entender sem um manual de instruções. Uma sátira é melhor sem muita explicação. Aquela chamada de Mariele e Marisa na hora de buscar os mortos de Bacurau é um exemplo do desnecessário.

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