Yesterday | Crítica

Otavio Almeida 2 de setembro de 2019 2
Yesterday | Crítica

Tão emocionante quanto trocar o show de sua banda favorita por ouvir suas músicas num karaokê

Por Otávio Almeida

Todo mundo gosta de cantar suas músicas preferidas no karaokê. É divertido, mas não tanto quanto cantar junto com sua banda favorita num show lotado. Essa foi a sensação que Yesterday (2019) me passou. É o exemplo perfeito de uma ideia empolgante para um filme que fica só na ideia.

É a história de Jack Malik (o estreante Himesh Patel), que trabalha num supermercado, mas tem vocação para músico, embora não tenha talento como compositor e mais azar na bagagem que muito astro pop medíocre que anda gravando, vendendo e enriquecendo por aí. A única que apoia Malik é Ellie (Lily James), amiga inseparável de longa data e agente de sua carreira musical quando não está lecionando para crianças numa escolinha. Mas após um apagão geral no planeta, Malik é atropelado por um ônibus e sobrevive para encarar um mundo em que os Beatles jamais existiram. É um pesadelo ou um milagre com a sorte batendo à sua porta? Eis a questão que Yesterday infelizmente se perde.

Mas, antes, uma parada aqui para pensar. Até este momento, só ouvimos uma única menção à banda lendária – quando Malik faz uma referência sutil a The Long and Winding Road, uma das músicas de John, Paul, George e Ringo. Por isso, achei a decisão de focar nos Beatles logo após o “apagão” foi um tanto estranha no sentido de gosto duvidoso mesmo. Lógico que entendi que cantar as músicas de uma banda consagrada, mas que ninguém ouviu falar nessa nova realidade, seria uma virada significativa para o protagonista, como mudar da água para o vinho. Foi a opção encontrada pelo roteiro para convencer quanto a saída de Malik de seu anonimato rumo ao sucesso instantâneo, afinal quem não conhece Beatles só pode não ter vivido na Terra nos últimos 50 anos. E não existe banda mais apropriada para ilustrar esse cenário. Mas fiquei com a sensação de que o gancho foi forçado.

Mesmo assim, Yesterday mantém o interesse, porque é divertido acompanhar Malik descobrindo mais desse novo mundo e como ele lida com a fama repentina vs a ética que ele está burlando; pontos que se confundem com a nossa realidade do lado de cá da tela, que está cheia de fake news, incluindo artistas fabricados. Himesh Patel surpreende para um novato. Não somente cantando Beatles de uma forma familiar e inédita ao mesmo tempo, o que qualquer um faria na situação do personagem. Mas pela promessa de que podemos ver outras boas atuações suas.

Mas falta alguma coisa… sabe aquela euforia quando ouvimos um clássico dos Beatles? Não peço um filme à altura da obra da banda, claro, mas curtir o repertório é praticamente o que sobra. Falta essa sensação em todo o restante do longa, que revela suas verdadeiras intenções aos poucos: a de entregar uma comédia romântica.

O problema é que seu desenvolvimento não rivaliza com a sinopse com foco nesse universo sem os Beatles. Toda vez que a atenção sai desse cenário para dar espaço ao romance, curiosamente, Yesterday perde força e flerta com o desastre. Sem polêmicas; apenas fatos da história do cinema: comédia romântica é um gênero que não costuma render grandes filmes e precisa de uma renovação urgente. Sei que as mensagens de algumas músicas dos Beatles estão inseridas na trama, como amor, paz, paz espiritual, verdade e atitude, mas antes de achar genial, basta lembrar que tudo isso geralmente compõe as tramas das comédias românticas. Ou seja, Yesterday ficou apenas na boa ideia.

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É estranho que o romance não dê certo, porque Lily James e Himesh Patel convencem pela química, mas suas intenções um com o outro nunca ficam claras. Por exemplo, não entendi o que trava a moça para não seguir Malik em sua jornada como músico. Qual seria o problema? Se ela sempre amou o cara e apoiou sua carreira como músico, por que ela não poderia largar a escola, os alunos e lecionar em outro(s) lugar(es)? Ou mesmo seguir com sua rotina, porém assumindo o relacionamento com Malik? Obviamente, a resposta não é pela questão ética, até porque somente o público é cúmplice da safadeza do protagonista.

Talvez porque o potencial do filme tenha sido construído em cima da premissa que levou ao roteiro e ao projeto como um todo: “Que tal fazer um filme sobre um mundo em que os Beatles jamais existiram?”

Mas como o roteirista é Richard Curtis, de Quatro Casamentos e um Funeral, Notting Hill e Simplesmente Amor, bom, a comédia romântica precisa assumir o controle em algum momento da história. Só que, para mim, temos um filme sobre essa realidade paralela (ou um pesadelo, pois Ed Sheeran e Pepsi existem, mas nada de Beatles e Coca-Cola) e temos outro filme que é a comédia romântica surgindo repentinamente e diluindo a premissa em nome dos clichês habituais do gênero. Só que as duas ideias não deram match.

Antes dos fãs de Sheeran me apedrejarem, ele não é ator e criticar sua atuação interpretando a si próprio é chover no molhado. É melhor ver Ed Sheeran rindo de Ed Sheeran (e aceitando “críticas” do próprio roteiro) a testemunhar a exagerada performance de Kate McKinnon, como a estereotipada empresária malvada que pensa 100% em dinheiro.

Porém, o que não funciona de jeito nenhum é o estilo loucão de Danny Boyle dirigindo um roteiro que não pede loucuras; como excessivos planos inclinados e letrinhas voando pela tela. Boyle é craque, mas não é jogador para um esquema tático que não incomoda o adversário. Esperamos muito mais de um profissional como Danny Boyle, talvez até mesmo a fagulha que faltava para acender a chama da inovação no gênero. Caramba, ele é ninguém menos que o diretor do contundente Trainspotting que influenciou o cinema. Sim, ele tem o direito de se ajustar às propostas do roteiro, mas aplicar cacoetes de sua assinatura quando a história não pede só para justificar sua presença? Se era para ficar na mesmice, qualquer um poderia ter dirigido. Enfim, Yesterday é uma bagunça tanto no planejamento quanto na execução.

Ainda que tenhamos a revelação muito bem-vinda de Himesh Patel, uma trilha sonora de respeito (o que sabíamos desde o trailer), uma piada bacana com o Oasis e cenas bonitinhas, como o encontro de Jack Malik com um ilustre personagem perto do final, Yesterday se vende como original e capaz de mudar o mundo (como os Beatles); mas falo do mundo das comédias românticas. Só que uma pena que fique satisfeito em ser lembrado como entretenimento genérico. Coisa que os Beatles nunca foram. Mas um karaokê sim.

VEJA O TRAILER:

Yesterday (2019)
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Jack Barth, Richard Curtis
Elenco: Himesh Patel, Lily James, Sophia Di Martino, Ellise Chappell, Meera Syal, Harry Michell, Vincent Franklin, Joel Fry, Kate McKinnon, Ed Sheeran
Duração: 1h46
Distribuição: Universal

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 3 de setembro de 2019 às 9:37 AM -

    A sensação que eu tenho é a de que “Yesterday” é aquele passatempo fortuito, para uma tarde de um final de semana. Um filme para assistir sem expectativas, uma fantasia, algo que nos deixe escapar da dureza do dia a dia.

  2. Otávio Almeida 3 de setembro de 2019 às 10:32 AM -

    É isso, Kamila! Mas acredito que diretores como Danny Boyle têm uma responsabilidade maior. Um peso maior. Por exemplo, Steven Spielberg dirigindo “O Terminal” é desperdício. Qualquer um poderia ter feito. Ele poderia assumir como produtor executivo e chamar um novato que espera sua grande chance. Bjs

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