A Lavanderia | Crítica

Otavio Almeida 27 de outubro de 2019 0
A Lavanderia | Crítica

Steven Soderbergh é um cineasta talentoso, mas que coloca sua imagem muitas vezes em risco ao apostar em trabalhos experimentais que não contribuem em nada para a evolução do cinema, mas somente para alimentar seu próprio ego. Ele dificilmente se repete no filme seguinte (o que é bom), mas geralmente entrega uma decepção retumbante logo após acertar no alvo. É só lembrar das continuações de Onze Homens e um Segredo ou saber que é o diretor de Traffic e Erin Brockovich, mas também de O Desinformante!. Em 2019, entregou pela Netflix o bom High Flying Bird, mas apaga rapidamente a impressão positiva meses depois com o horroroso A Lavanderia.

E olha que o roteiro de Scott Z. Burns reconstitui a queda do esquema de corrupção conhecido como “Os Papéis do Panamá”, que envolveu inclusive a Odebrecht no caso bastante repercutido aqui no Brasil nos últimos anos. Ao invés de se concentrar em um ponto ou personagem que represente o todo, Soderbergh prefere abraçar o mundo. Conta diversas historinhas que entrelaçam a teia tecida pela Mossack-Fonseca, empresa que foi o coração dessa podridão. No começo até pensamos que a trama será guiada pela personagem de Meryl Streep, vítima do esquema após a trágica morte do marido (numa cena muito bem filmada). Mas ela é apenas o centro de um dos “episódios” narrados pelas mentes criminosas que tocaram a Mossack-Fonseca, Jürgen e Ramón, respectivamente interpretados por Gary Oldman e Antonio Banderas.

A Lavanderia é um belo exemplo do que não se deve fazer para causar uma quebra descomunal no ritmo do filme. Imaginem se tudo acontecesse pelos olhos de Meryl… mas Soderbergh prefere entregar o verdadeiro protagonismo aos exagerados Gary Oldman e Antonio Banderas, que se divertem nos papéis, embora isso custe nossa paciência. Enquanto Meryl vive uma situação visivelmente dramática, Soderbergh faz o tom de comédia predominar muitas cores, luzes e trilha engraçadinha. Corta para a dupla de atores numa vibe muito mais cômica que esbarra no teatral no pior sentido da expressão. Ok, teatral é uma palavra injusta. Eu diria que esbarram na canastrice, gritando, fazendo caretas e gesticulando de forma exacerbada. Quebrando totalmente o ritmo do que vimos segundos antes com Meryl e qualquer história que surge na tela até o final.

Não acho que o problema esteja no roteiro de Scott Z. Burns. Falta foco a Steven Soderbergh, que não sei ainda se mirou a vibe do chato O Desinformante ou se quis dar uma de Adam McKay (o diretor de A Grande Aposta e Vice). Ele quer mostrar que existem outras Mossack-Fonsecas por aí e que a corrupção está enraizada numa profundidade inimaginável. Porém, quer explicar tudo de maneira excessivamente didática com dois professores irritantes que jamais engajam. Pelo contrário, repelem. Sem falar que nem há tempo suficiente para explicar tudo ao espectador.

Mas o Sr. Gary Oldman, gente… que mico! Antonio Banderas também está péssimo, mas ele não costuma ser over the top. A pergunta é: como vocês ainda aguentam Gary Oldman exageradão em 2019? Beira o insuportável quando o ator entra em cena falando alto, gritando e emulando um sotaque patético.

VEJA O TRAILER:

A Lavanderia (The Laundromat, 2019)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, Sharon Stone, Larry Clarke, David Schwimmer, Marsha Stephanie Blake, Jeffrey Wright
Duração: 1h35
Distribuição: Netflix

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