Meu Nome é Dolemite | Crítica

Otavio Almeida 29 de outubro de 2019 2
Meu Nome é Dolemite | Crítica

Eddie Murphy entrega a maior atuação de sua carreira em um dos melhores filmes de 2019

Por Otávio Almeida

Meu Nome é Dolemite (2019) é fácil um dos melhores filmes do ano. É sobre dizer não ao roteiro que a vida preparou para você e virar o jogo. É sobre a verdadeira arte que brota das próprias experiências de vida de um autor, que busca dinheiro sim, mas o reconhecimento de seu talento acima de tudo. É uma história real tão surreal que só poderia ser sobre cinema e acabar no cinema. E tem Eddie Murphy brilhando de forma tão intensa como há tempos não testemunhamos.

Como Rudy Ray Moore, um dos nomes mais importantes do blaxploitation, Murphy traz de volta a energia do início de sua carreira, que vimos em filmes como Um Tira da Pesada, 48 Horas e Trocando as Bolas. Está engraçado, mas subversivo; encantador, porém despido de qualquer vaidade; com um sorrisão no rosto escondendo melancolia e decepção. E longe de sua zona de conforto, porque Meu Nome é Dolemite pode ser divertido, mas não é a comédia tradicional com Eddie Murphy. É um drama adaptado da (dura) vida real.

O filme relembra a trajetória de Rudy Ray Moore, que jamais se conformou com a pobreza e, principalmente, o anonimato. Nos anos 70, trabalhou numa loja de discos, mas gravava músicas, fazia stand-up comedy em um clube noturno, mas nunca desistiu mesmo quando ninguém notava seu talento. Quando criou o personagem Dolemite, que se apropriou de piadas de mendigos, sua carreira estourou. Antes que você julgue o protagonista pela atitude politicamente incorreta, bom, de acordo com o filme, Rudy e todos naquele ecossistema estavam entregues à própria sorte em um mundo à parte esquecido pela elite branca e por Deus.

Mas o sucesso de Dolemite entre os fãs de sua comunidade não foi o bastante. Ruby decide levar sua palavra a um número maior de pessoas. E qual é a melhor mídia para alcançar esse objetivo? O cinema, claro.

O que se vê deste momento em diante coloca Meu Nome é Dolemite na galeria dos filmes mais bacanas que falam sobre filmes. Só que mais do que uma declaração de amor ao cinema, Meu Nome é Dolemite é uma ode a todos que não desistem de seus sonhos como artistas de diferentes segmentos. Ao mesmo tempo, uma porrada no sistema que dificulta o caminho de muita gente. É uma carta aberta contra a crítica social simplesmente porque Ruby não desistiu e sua história ainda é contada aqui para inspirar outros vários sonhadores.

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Pontos que marcam os trabalhos dos roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski em seus melhores textos, com O Povo Contra Larry FlyntO Mundo de Andy (ambos dirigidos por Milos Forman) e Ed Wood, de Tim Burton. Aliás, o Rudy de Eddie Murphy é um estranho no ninho e sua história teria tudo para virar um ótimo filme nas mãos do saudoso Milos Forman, um cineasta que espalhou sua arte inconformada dando voz aos “desajustados”, aqueles que não se encaixam, mas seguem lutando. Seja lá onde estiver, Rudy deve estar muito feliz com o que fez Eddie Murphy e seu diretor, Craig Brewer, que certamente é fã de Milos Forman.

Brewer, que fez Hustle & Flow (ou Ritmo de um Sonho), com Terrence Howard, consegue capturar o máximo possível em relação ao processo criativo de um artista. Desde os motivos que levam aos insights de Rudy, passando pela concepção do personagem desenvolvendo postura e o jeito de falar até sua ascensão no cinema. O diretor foca em Eddie Murphy, mas sabe o quanto é importante cercá-lo de grandes coadjuvantes para valorizar o brilho que Rudy e seu Dolemite emanam. E destaco Wesley Snipes (quem diria?), como o ator e diretor D’Urville Martin. Eu não sabia que ele era tão engraçado, imprevisível. Aquele cara durão de filmes de ação como Blade, Passageiro 57 e O Demolidor desapareceu para dar lugar a esse personagem afetado, egocêntrico e mimado que rouba todas as cenas em que aparece. Tem ainda a maravilhosa Da’Vine Joy Randolph, como Lady Reed, que eu não conhecia, mas que faz o filme respirar toda vez que surge em cena com seu talento monumental. Eddie Murphy, que também assina como produtor, jamais teria feito a maior atuação de sua carreira sem Da’Vine Joy Randolph e Wesley Snipes.

Você pode achar que, apesar dos palavrões (e uma cena de sexo divertidíssima), Meu Nome é Dolemite ainda é uma cinebiografia light demais, que não vasculha as imperfeições de Ruby ou sofrimentos pesados em sua vida. Mas não li manual algum provando que isso é uma regra. É um filme que escolheu ser feliz. Um filme que quer exaltar a paixão dos artistas e como eles concebem suas artes. É um filme para degustar com um sorriso de orelha a orelha.

VEJA O TRAILER:

Meu Nome é Dolemite (Dolemite is My Name, 2019)
Direção: Craig Brewer
Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski
Elenco: Eddie Murphy, Keegan-Michael Key, Mike Epps, Craig Robinson, Da’Vine Joy Randolph, Wesley Snipes, Tituss Burgess, Kodi Smit-McPhee, Snoop Dogg e Chris Rock
Duração: 1h57
Distribuição: Netflix

2 Comments »

  1. Paulo Ricardo 30 de outubro de 2019 às 5:09 AM -

    Tbm estou apaixonado por esse filme.E concordo contigo:essa é a maior atuação da carreira de Eddie Murphy.

  2. Kamila Azevedo 30 de outubro de 2019 às 11:37 AM -

    Ainda não assisti, mas vi que entrou no catálogo da Netflix. Vou adicionar à minha lista. Me empolguei com seu texto! rsrsrs

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