Coringa | Crítica

Otavio Almeida 8 de outubro de 2019 2
Coringa | Crítica

Joaquin Phoenix e Todd Phillips provam que somos responsáveis pela criação do Coringa

Por Otávio Almeida

Quando anunciaram o filme sobre a origem do Coringa, eu me perguntei “Por que?” e “Pra quê?”. Ainda mais depois do que Heath Ledger fez com o papel uma década atrás. Mas ao saber que o palhaço do crime seria interpretado pelo grande Joaquin Phoenix, o mínimo que eu poderia dar ao filme de Todd Phillips era uma chance. Ator monstruoso, Phoenix ainda tinha a vantagem do empate para ressuscitar o personagem com a magnitude que ele merece, afinal as comparações com Heath Ledger seriam amenizadas, porque a última referência era Jared Leto com seu Coringa patético e vergonhoso de Esquadrão Suicida. Em resumo, todo mundo sabia que Joaquin Phoenix ganharia esse jogo com extrema facilidade. E não deu outra; o ator dá um show que as massas não estão acostumadas em um filme tão promovido por um grande estúdio e visado pelo público.

Também é carregado de uma carga imensa de violência física e, principalmente, psicológica que o espectador mais fiel aos blockbusters que ao cinema em geral não está familiarizado. Mas é o que é, porque o Coringa é complexo e, praticamente, impossível de compreender. À primeira vista é o que tenta Todd Phillips, o cineasta do ótimo Se Beber, Não Case, mas que também assinou suas ridículas continuações. Porém, o diretor apenas usa a decadência de um homem e sua transformação no icônico personagem para falar sobre nós mesmos; inseridos nesse mundo atual polarizado, radical, que não conseguimos entender e, ao mesmo tempo, divide, enlouquece e destrói. O que é questionado em Coringa (2019) não é como podemos vencer neste cenário, mas como sobreviver.

Demais para um filme baseado em quadrinhos? Ora, qual é o problema? Por que Todd Phillips não pode ser ambicioso nesta adaptação? Ele pega Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um pobre coitado, que sofre de distúrbio mental, enclausurado em sua solidão, miséria, excluído pela sociedade, mas sem a mínima chance de redenção no meio dela. Repare nas cores que o cercam; escuras, cinzentas, dominadas por sombras, sujeira, lixo, ratos imensos. É possível imaginar o fedor dessa Gotham City que parece a Nova York de Martin Scorsese da virada dos anos 70 para os 80. Em seu caminho, Fleck lida com agressões e um cansaço absurdo pela distância física e mental entre trabalho e vida pessoal. Há até uma escada interminável que ele precisa subir diariamente, com seu corpo cheio de feridas, desnutrido, mancando e se arrastando. Além disso, mora com a velha mãe, que depende de seus esforços e sustento.

Mas seu maior problema é a doença mental. Não, minto. Seu maior problema é que o governo não está nem aí para cuidar de sua saúde debilitada. Mesmo assim é cobrado pelas pessoas para agir como um cara “normal”. Enfim, não é um absurdo ver um homem como Arthur Fleck se perdendo completamente rumo ao abismo de sua própria mente. No fundo, o filme é um estudo de personagem para mostrar que estamos doentes, pensando somente em nós mesmos; que não damos a mínima para gente como Arthur Fleck, deixamos os ricos mais ricos e elegemos seres como Trump e Bolsonaro.

Coringa_2

Para isso, Phillips conta essa história seguindo o ponto de vista de Arthur Fleck. Um olhar que demonstra o que está em sua cabeça e nem sempre o que ele está vendo de verdade. Imagine, então, esse personagem em sua descida ao inferno. E é onde Arthur se descobre mais confortável. É onde ele se encontra. Não à toa, a já clássica cena do Coringa dançando a viciante Rock and Roll Part 2, de Gary Glitter, enquanto desce as tais escadas infinitas, simbolizando o protagonista finalmente se encontrando e fazendo as pazes com a própria loucura. É quando o filme ganha em luz e cores vivas; um contraste proposital da fotografia de Lawrence Sher com o que vimos até este ponto da vida de Arthur Fleck (com os olhos de Arthur Fleck). Mas, agora, os olhos são do Coringa, que está livre da prisão que é o corpo em decomposição de Arthur, enquanto os nossos olhos ainda estão fechados e não perceberam que a verdadeira crítica é feita a nós mesmos.

Um espectador mais desatento verá um filme perigoso, que incentiva qualquer um a ter empatia pelo Coringa. Ou que incentiva o cidadão a pegar em armas e sair pelas ruas propondo justiça. É uma armadilha e tanto e muitos se pegarão inicialmente fazendo isso até o palhaço deixar as coisas bem mais feias. Por um lado, gosto da ideia de que o cinema pode cutucar e fazer o povo pensar. O que dizer, então, quando essa intenção vem de um filme com um apelo tão grande? Não é um filme fácil, que permite análises diferentes e, sobretudo, discussões. Não quero dizer que esse texto traz verdades absolutas, mas é a minha visão a respeito de um filme que deve ser digerido com o tempo e ainda vai dar o que falar.

Não seria assim se Todd Phillips amenizasse na violência, como fez Stanley Kubrick em Laranja Mecânica, David Fincher em Clube da Luta, e Scorsese em Taxi Driver e O Rei da Comédia (as maiores inspirações de Phillips), o que seria injusto com as condições enfrentadas por Arthur Fleck (e pelas pessoas ele pode representar na sociedade). Foi preciso expor seu sofrimento. O que me leva à Joaquin Phoenix.

Ele vai fundo nos caminhos mais obscuros da mente humana e não sei como conseguiu voltar ileso, além da mera explicação de que ele é um gênio imprevisível. Com o violino assustador da trilha de Hildur Guðnadóttir como incômodo acompanhante, Joaquin ri, gargalha quando quer chorar, ficar calado ou gritar de medo, insegurança. Não é qualquer ator que consegue fazer isso e arrancar respeito máximo do público e não aquelas risadas habituais e automáticas do espectador que só vê blockbusters. Joaquin prova logo de cara que rir de Arthur Fleck garante um lugar no inferno. Ele ora expõe, ora esconde distintas personalidades. Fleck alterna entre o exagerado, afetado, introspectivo, mas nunca o cômico. Sem um ator como Joaquin Phoenix, o Coringa não seria somente o centro das atenções na tela, mas também fora dela e Todd Phillips não teria conseguido apontar o dedo na cara do público. Com Joaquin, ele é o reflexo de nossa ganância, egoísmo e hipocrisia.

O que não gostei: Todd Phillips não precisava ter dado tanta importância para os Waynes na trana. Esse é um filme do Coringa; não do Batman. O figurão da alta sociedade poderia ter sido qualquer um, menos Thomas Wayne, pai de Bruce, e isso desvia o foco diversas vezes no filme. Por que é preciso lembrar ao público que isso é adaptação de quadrinhos e que o Batman, um dia, estará ali para cruzar o caminho do Coringa? E também não gostei como Todd Phillips perde a chance de encerrar seu filme numa cena monumental com o Coringa em cima de um carro de polícia como a personificação do caos. É o sentido do filme. Mas não; ele precisa acrescentar uns minutinhos a mais. Uma espécie de cena pós-créditos antes dos créditos finais. Seja para confundir o espectador quanto ao que ele viu ou para dar lição de moral num filme até então imoral. Ainda não decidi, mas mostrar o Coringa preso, embora ele sempre fuja, é dizer que “matar, roubar etc. pode dar cadeia. Logo, não faça isso”. De um jeito ou de outro, o filme deveria ter acabado na apoteótica cena anterior.

VEJA O TRAILER:

Coringa (Joker, 2019)
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Bryan Tyree Henry, Marc Maron, Shea Whigham, Bill Camp, Brett Cullen, Glenn Fleshler, Josh Pais
Duração: 2h
Distribuição: Warner

2 Comments »

  1. Paulo Ricardo 8 de outubro de 2019 às 7:42 PM -

    Esse ano tem sido excelente para os atores:Leonardo DiCaprio por “Era Uma Vez em Hollywood”,Taron Egerton por “Rockteman(esse pra mim uma surpresa,porque eu estava traumatizado por “Robin Hood”,Brad Pitt por “Ad Astra”,Antonio Banderas por “Dor e Gloria”…mas acho muito difícil um ator superar Joaquin Phoenix por “Coringa”.Ele é o meu FAVORITAÇO ao Oscar de Melhor Ator.

  2. Kamila Azevedo 20 de outubro de 2019 às 11:31 AM -

    Assisti nesta semana e o filme é bem reflexivo e faz um importante diagnóstico sobre a nossa sociedade atual, tão doente, que não consegue enxergar a doença do outro; ao mesmo tempo em que faz um estudo de personagem muito interessante.

Deixe seu comentário »