Morte e reinvenção do cinema

Otavio Almeida 1 de novembro de 2019 2
Morte e reinvenção do cinema

Enquanto discutimos se Martin Scorsese e Francis Ford Coppola têm razão ou não em bater na Marvel Studios, estamos perdendo a chance de debater um tópico muito mais importante nessa história. Com a ascensão das plataformas de streaming e o dinheiro dos grandes estúdios sendo destinados aos projetos com potenciais para blockbusters, qual será o futuro do cinema?

Veja o recente exemplo de Coringa, de Todd Phillips. Será que a Warner teria investido com a mesma intensidade em um roteiro sobre a mesma trama e o mesmo personagem à beira da loucura se ele não se transformasse no vilão do Batman? Ou se ele não tivesse qualquer ligação com histórias em quadrinhos e cultura pop em geral? Mesmo se ele ainda fosse interpretado por Joaquin Phoenix, vai. Acredito que esse roteiro não teria saído da gaveta. A não ser que, após uma longa jornada de negociações, ele acabasse bancado por um estúdio menor, mas sem a mesma divulgação agressiva que a Warner aplicou em Coringa. E é óbvio que esse filme não teria sido um estrondoso sucesso de bilheteria.

Por outro lado, ainda que tenha a assinatura de um Martin Scorsese, um filme como O Irlandês jamais seria visto por tanta gente no cinema do modo como será visto na Netflix.

Talvez muitos não tenham percebido isso ainda, mas estamos numa encruzilhada. Os próximos dois anos serão cruciais para o cinema como conhecemos e essa definição pode mudar mais rápido que imaginamos. Falando hipoteticamente, você acha que a Warner com seu HBO Max vai preferir gastar com um drama recheado de astros e estrelas para meia dúzia de espectadores assistirem no cinema? Ou esse tipo de filme atingiria um número bem mais relevantes de consumidores (essa é a palavra) através do streaming?

É um futuro que não está muito distante. Quando apresentou a primeira leva de novidades do acervo do Disney+, o estúdio do Mickey deixou claro que filmes com apelos populares continuarão indo para os cinemas, enquanto produções mais ousadas ou de baixo orçamento seguirão para sua plataforma de streaming. Seja como filme ou série. Vide o caso do roteiro sobre Obi-Wan Kenobi com Ewan McGregor de volta ao papel. Foi concebido para o cinema, mas terminou como série do Disney+. Vai que o projeto vira uma batata quente na mão como aconteceu com o duvidoso Han Solo. Aliás, aposto que se esse filme saísse hoje do papel, seu destino seria o Disney+ e não a tela grande.

Mais uma vez, vou falar de forma hipotética. Mas já pensou se as novas fases da Marvel e Star Wars pela Lucasfilm não rendem o esperado? Imagine se o próximo Avatar, de James Cameron, naufragar nas bilheterias? Pior ainda, como consequência de uma sucessão avassaladora de fracassos de filmes de orçamentos gigantescos pelos próximos cinco ou dez anos, Hollywood seria obrigada a se reinventar. Como aconteceu na revolução dos anos 70, quando nomes como (vejam só) Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas salvaram a indústria com talento e criatividade. Spielberg e Lucas, aliás, redefiniram o conceito do que era entendido como espetáculo para as massas nos cinemas.

Não dá para cravar nada, porque as plataformas de streaming não deixam de ser um risco para elas mesmas. Vai dar tão certo assim? Provavelmente sim, mas talvez matem primeiro a TV por assinatura como a conhecemos hoje antes do cinema atual chegar perto do fim.

Mas a ladeira está descendo. Recentemente, soubemos que a Disney está proibindo os cinemas norte-americanos de exibirem filmes antigos da Fox em sessões especiais, algo muito tradicional por lá (e que deveríamos fazer mais vezes aqui). O estúdio disse que não é bem assim, mas historicamente, a Disney gosta de deixar alguns títulos fora das prateleiras. Acontece de tempos em tempos com seus DVDs e Blu-rays, que saem do catálogo somente para aumentar a expectativa entre os fãs e retornarem anos depois em edições especiais. É uma estratégia de venda que pode ser repetida no circuito cinematográfico. Mas também é uma jogada que pode prejudicar pequenos cinemas que dependem desse tipo de filme.

A verdade é que o cinema e a arte em geral vivem um ciclo ininterrupto de morte e reinvenção. Você deve saber que houve uma época bem anterior aos Vingadores em que faroestes com John Wayne, musicais, épicos romanos e românticos levavam multidões aos cinemas. Hoje, dificilmente ganham as telas com campanhas de marketing impactantes nem lotam os cinemas todos os dias. Roteiros que dificilmente são aprovados pelos estúdios hoje em dia.  Enfim, contos antigos foram narrados oralmente. Mais tarde, foram para o papel, viraram livros e, hoje, podem ser degustados via formato digital. Por mais que processos sejam demorados e dolorosos, alguns finais significam novos começos. Acredito que, um dia, voltarão a fazer filmes grandiosos sobre um Arthur Fleck da vida em que ele não será obrigado a se transformar no Coringa.

2 Comments »

  1. Paulo Ricardo 2 de novembro de 2019 às 12:37 AM -

    Quer me matar do coração flamenguista? No momento que li o título-“Morte e reinvenção do cinema”-com a foto do mestre Scorsese, achei que algo de ruim tinha acontecido.Em relação a polêmica de Marty contra a Marvel,eu compreendo o ponto de vista dele,mas reconheço que tem filmes de qualidade nessa enxurrada de adaptações de quadrinhos.

  2. Otavio Almeida 4 de novembro de 2019 às 10:35 PM -

    Hahahahaha… Desculpa, não havia pensado nisso 🙂

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