O Rei | Crítica

Otavio Almeida 7 de novembro de 2019 0
O Rei | Crítica

Apesar do título, quem brilha é o príncipe francês de Robert Pattinson

Por Otávio Almeida

Boa trilha, assim como direção de arte, figurinos e fotografia, blá, blá, blá, mas não dá para fazer um filme em 2019 sobre os bastidores do reinado inglês e o papel de Henrique V na Guerra dos 100 Anos sem um texto de palavras fortes, sem confrontos pelos corredores com diálogos tensos e poderosos tão mortais quanto armas, e não é possível ir ao campo de batalha pós-Coração Valente e recusar a oportunidade de superar seu espetáculo visual e sanguinário. Então, eu me pergunto: qual é a outra razão para justificar O Rei (The King) que não seja a de promover a carreira do menino prodígio Timothée Chalamet?

Sobre o texto, não estou pedindo que apresentem profundidade semelhante à obra de William Shakespeare, o que é impossível sem sua linguagem e poesia. Mas me pergunto: “Pra quê refazer Henrique V sem a ajuda da genialidade do bardo?”. Entendo que seja um desafio buscar uma abordagem mais real da luta do jovem monarca britânico contra a França mais sem o auxílio da linguagem teatralmente rebuscada da peça clássica. Mas O Rei também não injeta originalidade alguma a essa história em termos de linguagem e, pior que isso, não se aproxima minimamente da força dramática de Shakespeare. Ou das versões cinematográficas de Laurence Olivier e Kenneth Branagh.

Com Chalamet à frente e a profundidade do drama reduzida em nome de entregar uma adaptação mais mundana, O Rei está para Henrique V como Dez Coisas que Eu Odeio em Você está para A Megera Domada, embora o filme com Heath Ledger e Julia Stiles tenha caído nas graças do público e seja lembrado até hoje; destino que certamente não será o do esquecível filme de David Michôd, diretor de Reino Animal. Tão esquecível e genérico quanto outro exemplar recente da Netflix sobre reis ingleses. Falo de Legítimo Rei, filminho com Chris Pine, cujo período histórico “continua” os eventos vistos em Coração Valente.

Pegando carona no filmaço de Mel Gibson, considero inadmissível que alguém tenha a coragem de filmar cenas de batalha sem qualquer noção de espetáculo (seja na ação ou mesmo no discurso incentivador antes do quebra pau). Isso não quer dizer que devem glorificar a guerra, mas esconder seus horrores é evitar tocar na ferida e desonrar aqueles que morreram. O Rei tem suas gotas de sangue, mas não há ferocidade. Entendo a intenção de Michôd em reduzir a carga destinada ao entretenimento, mas talvez fosse melhor ficar em casa ou dedicar seu talento a outro roteiro. Gladiador, de Ridley Scott, veio cinco anos depois de Coração Valente, e ganhou seu espaço provando que ainda era possível mostrar algo diferente. O mesmo pode ser dito de O Senhor dos Anéis. Mas são exceções ao piloto automático no qual podemos enquadrar O Rei. É como entregar menos que O Resgate do Soldado Ryan quando o objetivo é filmar os confrontos na Segunda Guerra Mundial. Se quiser fazer algo diferente que entregue algo no nível de Dunkirk, por favor. Não menos que isso.

Quanto às discussões e tramoias palacianas, gente, o primeiro Elizabeth, com Cate Blanchett é muito superior. Mas, ok, um exemplo do século passado. Levando em conta os últimos 10 anos, a ordem deveria ser superar padrões estabelecidos e não se contentar com pouco. Em outras palavras, você pode não ter gostado do final de Game of Thrones (e não dicordo), mas não há como negar a referência da série como um todo em termos de desenvolvimento de diálogos poderosíssimos disparados entre rivais ou aliados em discussões de estratégias políticas ou de guerra.

Resta Timothée Chalamet. O garoto é muito bom sim, já provou isso anteriormente com Me Chame pelo Seu Nome e Querido Menino, e tem uma carreira promissora pela frente. Mas é ofuscado toda vez que o surpreendente evoluído pós-Crepúsculo Robert Pattinson entra em cena. Ele tira o filme da chatice como se estivesse participando de outra produção ou propondo seu show particular independente do que planejaram para O Rei. O longa pode ter esse título, mas quem brilha de fato é o príncipe francês.

Porém, ambos são infinitamente melhores que o insuportável Joel Edgerton com suas caras e bocas que Hollywood insiste em apoiar há alguns anos. E sobre escalação de elenco: você confia em Sean Harris? Logo no vilão de voz rouca de Missão: Impossível – Nação Secreta e Missão: Impossível – Efeito Fallout? Achou mesmo uma surpresa?

VEJA O TRAILER:

O Rei (The King, 2019)
Direção: David Michôd
Roteiro: Joel Edgerton, David Michôd
Elenco: Timothée Chalamet, Robert Pattinson, Lily-Rose Depp, Joel Edgerton, Thomasin McKenzie, Ben Mendelsohn, Sean Harris, Tara Fitzgerald
Duração: 2h12
Distribuição: Netflix

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